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Desemprego frustra ganho extra com venda de chocolate caseiro na Páscoa

Na quinta-feira (25), Eloisa Souza Leonardo dos Santos, 21, só parou de trabalhar às 2h. Ela divulgava pela internet a tabela de preços dos ovos de Páscoa que venderá pela primeira vez neste ano. Moradora do Parque Sampaio Viana, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, ela sabe que vender este ano será mais difícil. “As pessoas não estão com dinheiro para gastar com chocolate. As vendas estão bem fracas”, afirma. Até agora foram oito encomendas. Os preços dos ovos vão de R$ 32 a R$ 70. “Amigas que eu conheço e que também fazem ovos de páscoa concordam que o valor está um pouco defasado, mas as pessoas não têm dinheiro.”

Desempregada, Eloisa tem hoje como principal fonte de renda uma loja de doces que usa o Instagram como canal de vendas. Mesmo com a pandemia, criou um cardápio especial para Páscoa, que este ano será em 4 de abril. Eloisa conta que já tinha um certo conhecimento desse mercado, pois ajudava a mãe, que também já fez chocolates para vender na Páscoa. Ela quer, agora, reunir dinheiro para bancar mensalidades da faculdade e outras despesas.

A Páscoa costuma ser fonte adicional de renda extra para muitas mulheres nas periferias. Este, porém, será o segundo ano consecutivo em que a pandemia compromete o retorno financeiro com a data. No ano passado, a celebração ocorreu pouco depois do início da quarentena em São Paulo, dificultando a venda desses pequenos produtores. Muitos já tinham comprado insumos, com base nas encomendas de outros anos, mais fartos. Sofreram com a queda nas vendas e também com a dificuldade para entregar as encomendas já feitas. Em 2021, o cenário piorou.

É o que sente Daysiane Conceição Ferreira, 28, que vive com três filhos no Parque Cerejeira, na região do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo. As encomendas, conta, neste ano minguaram. Até 25 de março, recebeu apenas cinco pedidos –bem abaixo dos cerca de 30 que chegou a vender ano passado. Daysiane é beneficiária do Bolsa Família e recebeu o auxílio emergencial. “Divido o que ganho para garantir as coisas das crianças e, com o que sobra, compro embalagens e chocolate para fazer os ovos em casa mesmo”, afirma. O produto artesanal tem um preço muito abaixo dos praticados no mercado, mas as próprias fabricantes têm explicações para o fato de estar cada vez mais difícil vender como em outros tempos.

O desemprego, por exemplo, é visto como um fator duplo. De um lado, quem não tem trabalho, faz o chocolate caseiro para vender na Páscoa com a esperança de conseguir um dinheiro adicional. De outro, quem está sem emprego economiza e reduz os mimos na data. Pesa também, a inflação, que deixou a matéria-prima mais cara, consumindo boa parte do lucro que se consegue com o produto caseiro. “Um chocolate de qualidade mesmo, de uma marca conhecida, está muito caro. Aí você tem que colocar o seu valor por cima. Acaba que no final você não ganha muita coisa”, afirma Eloisa.

A pandemia neste ano impôs velhos e novos desafios para os artesãos de doces. Outra vez, a maioria dos estabelecimentos comercias estão fechados, o que dificultar a circulação e a compra de insumos. como embalagens. Outra vez, também é complicado fazer as entregas. Usar aplicativo de transporte foi a estratégia usada por Lívia Sirqueira, 29, ano passado, no Jardim Zaíra, em Mauá, na Grande São Paulo. No entanto, devido à pandemia, ela se mudou em agosto para Barra de São Miguel, no Alagoas, para ficar mais próxima da sogra de 70 anos.

Por lá, ela se deparou com mais um empecilho criado pela pandemia, restrição de abastecimento. Para tentar diminuir o impacto, tentou alternativas para substituir embalagens e produtos para não ter queda no faturamento mensal.
Apesar da nova realidade, diz que as vendas estão estáveis. “A maioria das encomendas que peguei no ano passado foi de pessoas mais pobres. Neste ano, apesar da falta do dinheiro, peguei uma nova clientela também”, afirma.
As empresas de grande porte no setor projetam uma Páscoa melhor neste ano. A Abras (Associação Brasileira de Supermercados) estima um crescimento de 15% nas vendas em comparação com o ano anterior, já que o setor já está mais preparado para vender na pandemia.

Os empreendedores, no entanto, não têm a mesma leitura. Em Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, a chefe de cozinha Aline Chermoula, 37, que produz ovos de Páscoa desde 2019, diz que a crise aprofunda.

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