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Luiza Helena Trajano, a mulher que não para

Por Joelma Ospedal

Luiza Helena Trajano não para. Essa é uma definição simplista, mas muito verdadeira a respeito dessa mulher que é uma unanimidade no Brasil. Sinônimo de empreendedorismo – social e empresarial – Luiza Helena, em meio a tudo que realiza, fundou, há 8,5 anos, o Grupo Mulheres do Brasil, que é hoje o maior grupo suprapartidário do país, com 91 mil integrantes.

Presente em todo o Brasil e em vários países do exterior, o Grupo Mulheres do Brasil atua em mais de 20 causas diferentes. Franca, por exemplo, reúne quase 500 mulheres que atuam em causas e ações de Combate à violência contra a mulher, Corrente do Bem (apoio a famílias vulneráveis), Educação, Igualdade Racial, Saúde, Sustentabilidade, Trânsito, Verdejar (plantio de árvores e educação ambiental) e Vozes (palestras e testemunhos que inspirem jovens mulheres). Tem ainda os grupos transversais de apoio: Acolhimento e Orientação, Comunicação, Finanças e Patrocínio.

Luiza criou, também, o Unidos Pela Vacina, movimento da sociedade civil que atua para que 75% dos brasileiros estejam vacinados até outubro. Outra ação que tem a assinatura de Luiza Helena Trajano é o fortalecimento da presença da mulher na política. O Grupo Mulheres do Brasil criou uma carta de compromisso e qualquer mulher que está na política e quiser o apoio do grupo, tem que assinar a carta, demonstrando ser a favor da liberdade, da liberdade de imprensa e ser contra qualquer tipo de discriminação. “Não lançamos candidatas, mas vamos lutar pra ter mais mulheres na política”, disse Luiza.

Diante de tanta atitude, de tanta força mobilizadora e  de tanto comprometimento com causas importantes, é natural que o nome de Luiza Helena sempre surja quando o assunto é eleição presidencial. Mas ela descarta completamente a possibilidade de se candidatar. Veja o porquê, na entrevista exclusiva que Luiza Helena concedeu à Folha de Franca. (Assista os principais trechos no vídeo abaixo).

Folha de Franca – Luiza você é uma mulher que está sempre fazendo alguma coisa, envolvida em grandes projetos. Como está lidando com esse período de isolamento? Como ficou rotina nesses tempos pandêmicos?

Luiza Helena Trajano – Com a conexão digital, você se movimenta menos fisicamente, mas você faz muito mais coisas e em lugares muito diferentes. Eu acabo fazendo coisas das 8 às 22h. Acabo uma, já pego outra, acabo uma, pego outra…E até nem dá muito tempo de fazer as coisas mais normais, de, por exemplo, ligar para as pessoas.

Mas eu equilibro muito meu tempo, também terceirizo bastante, não sou muito centralizadora. Então, estou fazendo muita coisa diferente, entrando em países diferentes, temas diferentes. Uma hora eu estou com cientista, outra hora com empresários, outra hora com estudantes, outra hora com uma equipe nova do Magazine Luiza que está chegando.

Então, essa situação dá condição de fazer muita coisa no mesmo dia, mas sinto muita falta da presença física. Lógico, a conexão digital vai continuar, mas a presença física é o que faz o propósito, a cultura, a amizade, a cola. Se Deus quiser, logo a gente vai ter as duas coisas.

Folha de Franca – Em meio a tudo que faz, um projeto de destaque dos últimos tempos foi o Unidos Pela Vacina. Como nasceu esse movimento?

Luiza – O Unidos pela Vacina nasceu no dia que o Grupo Mulheres do Brasil entendeu que nesse momento, com tanta morte, com quase 15 milhões de desempregados, a única alternativa numa pandemia é a vacina.

E também não adiantava a gente vir só com Mulheres do Brasil. Então, a primeira coisa que fiz foi convidar o IDV (Instituto do Varejos), do qual também faço parte desde a fundação. E o Marcelo, que já foi nosso CEO, hoje é o presidente do IDV e eles toparam. Começamos a convidar outras pessoas e quem veio também convidou outras…

Mas o mais importante pra nós são as premissas que a gente traçou. Primeiro a gente não ia fazer diagnóstico, nem julgar, nem dar opinião no passado. A gente ia ser daqui pra frente, desde janeiro.

Segundo a gente ia alinhar com todas as forças – com Ministério da Saúde, pra falar o que a gente estava fazendo, e com a população –  e a gente não ia falar quem fez, quem não fez, porque comprou, porque não comprou.

Então a gente fez dois pilares, um com o Ministério da Saúde, mas a gente não se envolveu em compra e, sim, atuamos pra ajudar no que precisasse, pra liberar mais rápido quando chegasse vacinas.

E o outro pilar tem a ver com os 5570 municípios que tem UBS, que tem SUS. Gente, isso é maravilhoso! Cada lugar do nosso país, pode ser pequeninho, pode ser até que não tenha tecnologia, mas tem alguém apaixonado por vacinação.

O Brasil tem uma história de vacinação que é impressionante. Você vê, você vacina seus filhos, seus netos, é automático. A gente já leva pra vacinar e nem pergunta que tipo de vacina que é.

Mas, para ajudar, a gente perguntou para os responsáveis pela vacinação: “O que vocês precisam, pra quando tiver mais vacina, a gente vacinar mais rápido?” E era caixa térmica, refrigerador próprio, tecnologia…Porque muitas vezes a tecnologia de um não está batendo com a de outro.

Folha de Franca – E como está o Movimento hoje?

Luiza – Nós já estamos com mais de 4 mil pessoas envolvidas. Também conseguimos padrinhos e madrinhas que ajudaram na causa, como a Coca Cola que financiou todo o estado de Manaus. Assim como teve gente que financiou a cidade em que nasceu, “ah, eu quero comprar um computador ou uma geladeira, uma caixa térmica pra dar pra tal cidade”. Nenhum deles passam dinheiro pra nós. Tudo é direto com cada prefeitura – o doador com a prefeitura.

Nós temos, também, cinco agências de marketing, tudo voluntário; os melhores advogados do Brasil, pra fazer compliance conosco; área de logística, que ajuda para ir mais rápido com as vacinas… E aí virou um movimento com mais de 4 mil pessoas envolvidas, tudo voluntário. E é impressionante! Todo dia chega gente pra ajudar, porque todo mundo sabe que uma pandemia só vai curar quando for bom para todos. Quando for uma coisa de comunidade.

E outra coisa, não negociamos nada. Não compramos nada e não vendemos nada. Nenhum lugar nosso é pra vender, é tudo pra ajudar. Por esse motivo e porque a gente não faz diagnóstico, muita gente veio nos ajudar. E porque, também, a gente não tem partido. Temos um só partido que é vacinar 75% dos brasileiro até setembro/outubro desse ano.

Folha de Franca – Você acredita que será realmente possível atingir essa meta, de vacinar 75% dos brasileiros até outubro?

Luiza – Estamos acreditando que sim. Vamos receber mais vacina, você viu que o número de vacinas por dia cresceu, as idades estão diminuindo e, como o Brasil é um país mais jovem, hoje tem muita gente na fila. Quando a idade era acima de 50, não tinha tanta na gente na fila. Agora tem Estado que já está liberando 30 anos, porque conseguiu mais vacina.

Então nossa luta é pra conseguir pelo menos a primeira dose, que já protege, mas o certo era dar a segunda dose até 30 de setembro. Quem sabe, né? Estamos trabalhando pra isso.

Tem gente que me pergunta “e se não der?”. Se não der, ninguém está lá pra ganhar nada nem meter o pau em ninguém. Nosso objetivo é contribuir nesse momento tão difícil para que todos os brasileiros (sejam vacinados). Não adianta eu dar pros meus funcionários e os outros não vacinar, minha gente, isso não é certo. A pandemia só acaba quando tiver 75% da população vacinada, no mínimo.

Os países que têm vacinado, como os Estados Unidos, têm mostrado que a economia volta, que as pessoas param de morrer. Mesmo no Brasil vocês vão sentir uma queda de internação, uma redução no número de mortes.

Eu já fui vacinada e posso pegar, mas dificilmente vou internar. E a internação é que atrapalha. Em duas horas seu pulmão vira água. É uma doença muito séria. E virando água precisa de respirador. O Brasil adquiriu respiradores, as famílias deram muito respirador, mas uma coisa eu falo, não dá conta!

Folha de Franca – Luiza, o que você diria para quem está escolhendo vacina?

Luiza – Por favor! A coisa que me deixa mais triste é ficar escolhendo vacina. Eu entrei na fila, meus filhos entraram, a Roberta minha assistente entrou na fila e a primeira vacina que tem, tem que tomar.

Teve um prefeito de uma cidade que fez uma coisa que eu faria se eu fosse política. Quem estiver escolhendo vacina, vai ficar pra vacinar depois que os jovens de 18 forem vacinados

Tanta gente mais nova querendo tomar, que chora pra tomar qualquer uma delas, então, se quiser escolher vacina, vai ficar pro fim da fila. Mas uma coisa eu alerto, muita gente que escolheu vacina, dois dias depois deu covid e foi internado. Então, não escolham vacina!

Ano que vem vocês vão poder escolher o que quiser, vai ter muita vacina, mas esse ano, não. São 40 milhões de pessoas por dia pra serem vacinadas com 5 ou 6 laboratórios fazendo vacina pra todo mundo inteiro. E a gente é muito grata porque fizeram num praz curto, e bem-feita.

Folha de Franca – Tem gente que reclama da reação que a vacina pode causar…

Luiza – Gente, a vacina protege! A reação que dá é normal do organismo. Toma duas vezes de antitérmico, acabou. É preferível ter uma dorzinha no corpo, no braço, uma febrinha, mas em 10 horas eu garanto pra vocês que passa.

Agora, os efeitos da covid, a gente não sabe. O que vai acontecer pra quem teve fraco ou forte daqui seis meses ou daqui um ano, eu não posso garantir.

Esse mal-estar que tem da vacina, que uns tem outros não, garanto que em poucas horas, com duas doses de Dipirona, Novalgina, melhora. Então, por favor, não escolham vacina. Isso pode voltar contra você mesmo.

Folha de Franca – Como você avalia a gestão da crise da vacina, em todos os níveis? O que está indo bem e o que poderia ser feito de forma diferente?

Luiza – Não vou fazer diagnóstico e nem vou fazer previsão. Me desculpe, mas eu não vou. Acho que todo mundo está tentando. Os prefeitos estão tentando dar o melhor de si, os profissionais de saúde…  Então, acho que não é hora de parar pra essa avaliação. É hora de fazer acontecer.

Desde janeiro que estou procurando nem fazer diagnóstico, nem avaliar, nem dar opinião. A gente está procurando trabalhar. Quem sabe daqui uns 6 meses vou poder fazer essa avaliação pra você.

À medida que eu avalio, fico com raiva, ou  posso ficar com raiva e quem te irrita te domina e acabo não trabalhando. Nesse momento temos que trabalhar todo mundo pra resolver um problema muito grave que o mundo está atravessando e que não foi embora. Taí a Delta…Tenho tanto trabalho que não quero ficar avaliando quem acertou quem errou.

Quando começou a pandemia, o povo falava ‘vai ter desemprego, vai ter isso, vai ter aquilo’ e eu falava ‘eu não sei nada, estou aprendendo. Agora, se vocês acertarem, vão virar cartomante’. E muitos erraram. Quando o Magazine Luiza entrou no “não demito”, muita gente falou ‘você vai ter que demitir, vai ter que demitir’. No final, nós admitimos 4,5 mil pessoas, inclusive a maioria em Franca. Se a gente ficar só pensando, analisando, não adianta. Nós fomos trabalhar. Nossa equipe fez diferente do que vinha fazendo, contratou médico, criou parceiro Magalu, é trabalhar gente, não tem muito o que fazer, é criar coisas, é vencer.

Folha de Franca – Como você avalia o trabalho do Grupo Mulheres do Brasil em Franca?

Luiza – Franca foi o primeiro núcleo que montou fora de São Paulo, porque tenho laços muito grandes, não só com a cidade, mas também com as minhas amigas, a Eliane (Sanches Querino), a Janisse (Mahalen), a Dora (Bittar), uma equipe toda.

A Eliane topou montar o grupo em Franca, foi uma coisa importante. E Franca  é uma cidade empreendedora, ela tem coragem de fazer as coisas. E foi um grande ensinamento. Franca tem feito coisas maravilhosas, tem trabalhado muito. Agora nós ajudamos em coisa que a gente nunca pensou, que era ajudar o social. A gente não era de dar comida, a gente era de dar o peixe, mas faltou comida na mesa, então nós ajudamos. Nós temos política pública, trabalho de combate à violência contra mulher, empreendedorismo,  temos muita coisa importante em Franca que nos ajuda até a multiplicar pro resto do Brasil, porque o que deu certo e o que não dá é um aprendizado pra nós, porque foi o primeiro núcleo no meio de 145 que temos hoje. A gente é muito grata.

Folha de Franca – Conta um pouco dessa sua relação com a Eliane.

Luiza – A Eliane consegue manter a cola do grupo, mesmo a distância, mesmo sem os encontros pessoais. Ela acredita e tem nos ajudado muito, assim como a equipe, as líderes. Ela sabe desenvolver liderança, o que é muito importante. A Eliane é madrinha da minha filha que tem 40 anos. Então a gente tem amizades que se mantêm, e elas fazem amizade com minhas amigas de São Paulo. Isso é legal porque a gente resgata essa história.

Minha tia mora em Franca e a cada 15 dias estou aí por causa dela, tenho casa aí, tenho muita gente aí com quem trabalho há muitos anos. Eu sou muito apaixonada pela minha cidade, minha tia, então, nem se fala, mesmo ela estando um pouco demente ela fala que Franca é a melhor cidade que existe.

Folha de Franca – Como você avalia a participação da mulher brasileira na política

Luiza – Estou muito empenhada, tenho entrado em vários movimentos, não importa o partido, para levar mais mulheres pra política. Não temos nada contra os homens, mas a gente tem só 12% de mulheres na política, é muito pouco. Mas isso vai dar uma grande guinada, agora. O Grupo Mulheres do Brasil tem uma carta de compromisso e qualquer partido e mulher que está na política e quiser nosso apoio, precisa assinar que é a favor da liberdade, liberdade de imprensa, e é contra qualquer tipo de discriminação. Já temos adesão em quase todos os estados. Independente do partido, se a educação for pra todos, ela tem que brigar pela educação,  saúde pra todos, a democracia que a gente presa tanto,  enfim, não lançamos candidatas, mas vamos lutar pra ter mais mulheres de todos os partidos que assinem essa carta conosco.

Folha de Franca – Luiza, imagino que a pergunta que você mais responde nos últimos anos deve ser se você vai se candidatar…

Luiza – Esse foi o ano que mais escutei (risos)

Folha de Franca – E você considera a possibilidade ou está descartada?

Luiza – Tá descartada, não vou sair candidata, mas eu sou política, acredito na força de um grupo em políticas públicas e é a política pública que move. Mas sou totalmente contra essa divisão, essa raiva que se criou de um lado e do outro. Eu acho que só com a união e o diálogo que conectam, vamos sair dessa dificuldade tão grande no mundo.

Folha de Franca – Luiza, por favor, deixe uma mensagem para nossos leitores

Luiza – Primeiro vou deixar uma mensagem pro Brasil. Convido todos vocês pra se unirem. É um momento muito sério. Fechou a Disney, fechou Paris, fechou Vaticano, fechou tudo. Esse vírus veio pra nos dar uma lição muito grande, da nossa impotência. Temos que ser muito juntos.

Agora, uma mensagem para Franca. Franca é tão empreendedora, de pessoas tão batalhadoras, eu tenho um orgulho! Vamos valorizar, vamos fazer dela uma grande cidade como exemplo, vamos nos unir cada vez mais. E vocês sabem que podem contar sempre comigo, eu tenho muito orgulho de ser de Franca e do Magazine Luiza ser um dos maiores geradores de emprego daí também.

Quero convidar a todas as mulheres que estão nos assistindo para entrar no grupomulheresdobrasil.org.br. A gente quer inteirar 100 mil mulheres esse ano pra gente ter mais força política do que a gente tem.

Joelma Ospedal

É jornalista e apaixonada por comunicação.

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