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Geólogo alerta: tempestade de areia pode acontecer de novo em virtude do desmatamento

A tempestade de areia que varreu Franca no último domingo assustou ao mesmo tempo em que encantou não só francanos, como todos que tiveram acesso ás imagens. As fotos e vídeos que mostram a nuvem de poeira são impressionantes e circularam por todo o país. Mas, afinal, o que é exatamente essa tempestade de areia? Como ela se forma? O que pode causar? Para responder a essas perguntas, a Folha de Franca conversou com o geólogo Rodrigo Artur Perino Salvetti, que é professor de Ciências Biológicas do Ceunsp (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio).

O profissional estuda a composição, origem e estrutura da crosta terrestre, suas transformações. Ele também investiga como as forças naturais, como a desertificação e a erosão, atingem o planeta. Rodrigo explicou em detalhes o que é, como se forma e o que pode acarretar para as cidades e a saúde humana o contato com as tempestades de areia e fez um alerta: “esse evento pode ocorrer novamente no futuro, como consequência do desmatamento e das mudanças climáticas”.

De onde vem essa nuvem de poeira? O que ocasiona essa nuvem de poeira?

Nuvens de poeira ou tempestades de areia ocorrem em ambientes áridos, em condições nas quais ventos fortes podem colocar em suspensão grãos de areia e poeira na atmosfera, formando grandes nuvens que podem se deslocar rapidamente, encobrindo grandes áreas, inclusive cidades. A poeira e os grãos de areia podem vir dos solos expostos, geralmente mais secos nesta época do ano por conta da estiagem. Quando ventos fortes atingem esse solo, colocam as partículas desse solo em suspensão, e as deslocam por grandes distâncias pela atmosfera.

O que é exatamente essa nuvem? É um fenômeno natural? É possível detectar onde ela começa?

A formação das nuvens de poeira é um fenômeno natural, associado a basicamente dois fatores principais: a existência de solo seco, fino, que pode ser facilmente lançado a atmosfera, e a formação de ventos ascendentes ou frentes de rajada na atmosfera. Frentes de rajada se formam quando uma massa de ar mais frio, associado a frentes frias, encontra uma massa de ar quente. Esse choque forma intensas movimentações na atmosfera, resultando em ventos de grande intensidade. Esses ventos podem colocar o solo em suspensão na atmosfera, formando as nuvens de poeira. Apesar de ser um fenômeno natural, não é simples prever quando uma nuvem dessa pode ser formar novamente, pois ela depende não só dos fatores climáticos, mas também da cobertura do solo na área onde ocorrer o choque das massas de ar.

Quais os riscos que uma nuvem de poeira como essa pode acarretar?

Os riscos principais são a perda de visibilidade ocasionado pela nuvem de poeira, que pode causar acidentes com veículos e aeronaves, e os ventos fortes associados a seu deslocamento, que podem causar danos em equipamentos urbanos e queda de árvores. Para a saúde humana, os riscos são associados a entrada de corpos estranhos nos olhos e a inalação dessas partículas, as vezes muito finas. Essas partículas podem penetrar no nariz e na garganta, e eventualmente chegar aos pulmões, afetando sobretudo as pessoas com doenças respiratórias crônicas. Assim, o recomendado é permanecer em espaços fechados até que a nuvem se dissipe.

Essa nuvem de poeira tem ocorrência rara ou é comum?

Em ambientes de deserto, esse fenômeno é relativamente comum. São muitos os relatos de nuvens de poeira e tempestades de areia nos desertos do meio oeste americano, nos desertos africanos e na península arábica.

É possível antecipar a formação de uma nuvem de poeira como essa?

Os meteorologistas conseguem prever quando ocorrerá a formação das frentes de rajada, associada ao encontro brusco de massas de ar frio, proveniente das frentes frias, com ar muito quente e seco. Se nesse momento, houver solo exposto e seco, pode haver a formação dessas nuvens de poeira.

No domingo, logo após a nuvem de poeira se dissipar, choveu (coisa que não acontecia há semanas). Foi coincidência ou os eventos têm relação direta?

Existe correlação direta entre a formação das nuvens de poeira e a chuva que acompanhou o fenômeno. O encontro da frente fria com as massas de ar quente força a condensação da umidade do ar e a formação de nuvens carregadas, que geralmente são descarregadas na forma de chuva denominadas de frontais. Essas chuvas podem ser muito intensas e acompanhadas de raios e granizo, a depender da diferença de temperatura entre a massa de ar frio e a massa de ar quente. Após a passagem da chuva, a temperatura da atmosfera geralmente cai sensivelmente, e o ar fica bem mais frio do que estava antes.

A devastação florestal pode ter relação com a nuvem? Ou seja, se tivéssemos mais árvores na região, elas “impediriam” a passagem de uma nuvem como essa?

A presença de árvores e vegetação no solo diminui a quantidade de solo exposto, diminuindo a quantidade de poeira que poderia ser colocada em suspensão na atmosfera. Com a presença de mais vegetação, a atmosfera fica mais úmida e isso também evita esse tipo de fenômeno.

Por fim, com a chegada da primavera, a atmosfera tende a ficar mais úmida, reduzindo a secura do solo e diminuindo a possibilidade de novas ocorrências desse evento. É importante frisar, porém, que que esse evento pode ocorrer novamente no futuro como consequência do desmatamento e das mudanças climáticas, que mudam o padrão de ventos e a temperatura da atmosfera.

Joelma Ospedal

É jornalista e apaixonada por comunicação.

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