Religião

O poder está corrompido?

Hoje é muito comum ouvirmos muitas coisas a respeito de Poder e de Autoridade.
Há grandes embates na disputa de poder. Presenciamos um “vale tudo” nesta luta pelo poder.
Há quem diga que o poder emana do povo. Será isso uma verdade? Se for verdadeira essa afirmação, posso perguntar, então, por que é que sempre o povo sofre as consequências do mau uso do poder se este deve estar a serviço do povo?

Há uma demonstração de que existe um juízo supremo que detém o poder maior. Como isso pode acontecer? Cria-se até uma estrutura para que “o amigo do rei” possa exercer um poder que se torna perene ao longo de anos a fio, e até de gerações, não importando o aspecto caduco de tal regra que vai aos poucos engendrando uma mentalidade de casta e de superioridade sobre os membros da sociedade que literalmente passam a ser considerados seres inferiores ou totalmente ignorantes.

Existe um poder que possa ser chamado de Legítimo?
A sociedade em que vivemos, através de determinados órgãos, dita normas e regras para serem impostas como caminho para uma convivência pacífica ou para que haja o respeito a direitos e obrigações das pessoas. Quem lhe conferiu poder para fazer isso? O que então determina que esse ou aquele direito, esse ou aquele dever está sendo respeitado e promovido?

Na verdade são questões que nos colocam diante de um tal ideal que entre nós está bastante distante de ser verdade ou ainda de ser atingido. Isto tem sido demonstrado por todos os acontecimentos, sentenças judiciais, discussões e decretos que nada mais significam que disputa de grupos e indivíduos que buscam uma supremacia, pouco importando-se com o bem comum e com a justiça correta que deveriam ser gerados pelo poder e autoridade no seu legítimo serviço.

Isso acontece porque a autoridade e o poder exercidos não se revestem da verdadeira sabedoria conforme o livro de Provérbios 8,12-16: “Eu, a Sabedoria, moro com sagacidade, e possuo o conhecimento da reflexão. (O temor de Iahweh é o ódio do mal). Detesto o orgulho e a soberba, o mau caminho e a boca falsa. Eu possuo o conselho e a prudência, são minhas a inteligência e a fortaleza. É por mim que reinam os reis, e que os príncipes decretam a justiça; por mim governam os governadores, e os nobres dão sentenças justas.”

A falácia das palavras empoladas usadas pela Toga e os argumentos enraizados na mentira pelos políticos e detentores do poder fazem com que as sentenças e decisões cada vez mais se distanciem da Verdade provocando assim divisões e criando facções na sociedade já polarizada e distante do amor, da justiça e da paz que são a base da fraternidade, da solidariedade e da boa convivência entre as pessoas.

Existe uma violência interna, latente nos embates e disputas, que atinge aos poucos cada pessoa que se vê obrigada a tomar partido em busca de uma vida melhor e às vezes da própria sobrevivência, e na defesa da própria liberdade.
Está expresso na Escritura que a fonte de todo poder e autoridade é divina, e conforme diz S. Paulo “…não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus…”(Rm 12.1). E Jesus no diálogo com o governador Pôncio Pilatos quando este lhe diz: “Não me respondes? Não sabes que eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?”. A resposta que Jesus lhe dá é esclarecedora e indica qual a fonte verdadeira do poder e da autoridade: “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado” (Jo.19,10-11) e ainda em Mateus 28: “Todo poder me foi dado no céu e sobre a terra: Ide, portanto e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!”

Neste sentido, a finalidade de todo poder e toda autoridade está voltada para o bem do povo, para o bem comum, para preservar e promover a paz, para o que Jesus ensinou, para proteger o mais fraco submetido a desmandos e opressões que lhe são impostos pelo domínio das tiranias, enfim para proteger e promover a vida.
No entanto, no nosso meio há uma triste constatação: o poder corrompe e se deixa corromper. As mazelas e as falcatruas aparecem quando a tentativa é camuflar ou até eliminar a verdade. Tudo isso tem um preço.
Então surgem as propinas e negociatas, e quando este tipo de atitude vem de autoridades que deveriam proteger a justiça, a verdade, os direitos individuais e coletivos, estamos diante do falimento e do fracasso da sociedade.
Passa-se ao julgamento e condenação da Verdade.

Infelizmente, isso não é tão novo assim, está presente na índole do poder e autoridade exercidos sem escrúpulos. Esta é já uma constatação que vemos no capítulo 28 de Mateus, “…enquanto elas iam, eis que alguns da guarda foram à cidade e anunciaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que acontecera. Estes, depois de se reunirem com os anciãos e deliberarem com eles, deram aos soldados uma vultuosa quantia de dinheiro, recomendando: “Dizei que os seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíeis, e o roubaram. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos deixaremos sem complicação. Eles pegaram o dinheiro e agiram de acordo com as instruções recebidas…”

O consolo para nós vem do convite da Sabedoria divina: “Escutai, reis e entendei! Instruí-vos, juízes dos confins da terra! Prestai atenção, vós que dominais a multidão e vos orgulhais das multidões dos povos! O domínio vos vem do Senhor e o poder, do Altíssimo, que examinará vossas obras, perscrutará vossos desígnios. Se, pois, sendo servos de seu reino, não governastes retamente, não observastes a lei nem seguistes a vontade de Deus, ele cairá sobre vós, terrível, repentino. Um julgamento implacável se exerce contra os altamente colocados…A vós, portanto, soberanos, me dirijo, para que aprendais a ser sábios e não pequeis…”(Sab 6,1ss)

Pe Fábio Girolamo

É pároco das Paróquias Menino Jesus de Praga e Sta. Ifigênia. Já foi vigário geral e pároco da Paróquia São Crispim, todas em Franca. É, também, Procurador da Diocese de Franca

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