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Lulu do Canavial e o Milagre de Natal – Parte III

Inhaim?

É hoje o meu grande dia. Meu primeiro dia de bico de assistente de Papai Noel no Besta’s Shopping. Nem dormi direito. A Nininha latiu noite inteira com um gambá. Mas acordei bem. Renovei os bobes, usei Kanechon no cabelo na noite anterior (diz que estica) e pus o lenço. Tomei dois copos de leite, pão com margarina (pobre, cê sabe como é, né?) e fui pegar o busão da madrugada. Lotado de novo, até galinha colocavam no porta-malas. Sabem o famoso cata-jeca? Era o meu.
Cheguei no “shops”, fui pro banheiro me trocar. Tirar um vestido que deixava a volúpia solta e colocar a cinta modeladora. E o tanto de alfinete nas costas? “Trocentos”. Consegui pôr. Vestido apertado que não cabia uma pulga. Gorro do caralho esquentava a orelha. Sombra verde, rouge, batom vermelho carmim, cílios postiços (um dia vou fazer botox, minha boca tá parecendo boca de vaca com um narigão e um risquinho).
Fui para onde estava minha turma.

A dona da agência começou as apresentações das minhas colegas de trabalho: Esta é a Sarita (dente de coelho); esta é a Penélope (olho azul que parecia de “vridu”, não fui com a fachada); esta é a Ambrísia (corcunda); esta é a Adelícia (fala fina, parecendo anãozinho que chupou gás de hélio); esta e a Dosolina (nariz tão grande que lá na minha terra chamam de ladrão de ar) e esta é Fodelícia (peituda que nem eu e cara de fodida).
Foi a vez de me apresentar o Papai Noel. E eu: “Qual o seu nome, Papai Noel”?. E a dona da agência “Fala alto que ele é surdo dos dois ouvidos. E ele: “Pablo Domício” – E eu “Plabo? Tá bão”.
O Papai Noel tinha barba natural e um bigode amarelo de tanto pitar paiêro (igual a Lolosa), um dente de ouro, língua presa e cuspia tanto que precisava de um guarda-chuva. Cara de tarado e viroto (com um olho ele batia o bife, com o outro vigiava o gato), barriga de quem engoliu um barril de chopps e também tinha cecê. Botaram óculos na ponta do nariz dele. Mas cheirava a cangibrina. Era dos nossos.

O “shops” abriu. Parecia estouro de boiada. Nunca vi tanto menino. O povo não para de trepar. O mundo não vai se acabar, como diria minha avó Maria José Brochado. Nunca vi tanto moleque.
Fiquei responsável por olhar as crianças e colocá-las no colo do Papai Noel para tirar retrato, enquanto os pais faziam compras. Tinha menino mijado, cagado, “tussinu”, criança branca, vermelha, azul, de “zói rasgado”, cabelo enrolado, liso, de rabo, o capeta.
Lá vai eu fazer a fila. Trabalho “disgraçado”. Eu ainda gritando com o ordinário do Papai Noel surdo: “Põe o menino no colo, desgraçado”. “Ri agora, excomungado, para o retrato”. “Pergunta o que ele quer de presente, gagá”. “Ri, menino, pro retrato”. Um deles me falou: “caguei”. Tive que levar o moleque no banheiro. Que carniça. E que fralda era aquela? Eu era acostumada com fralda de pano e alfinete. Conhecia aquilo não. Tirei a fita. Pura bosta. Eu me atrapalhei, me borrou os braços. Joguei a bunda do menino no chuveirinho (dando vômitos), lavei e pus outra fralda nem sei que jeito. Milagre de Deus. Voltamos.

Cadê o Papai Noel? Cheio de crianças esperando. Já sei. Tava pitando um Paiêro. Achei ele lá fora do “shops”. Ai, tenho que tomar um chopps. Fui lá no quiosque com copo de guaraná e pedi o chapa amigo para colocar um sem colarinho e marcar na ficha. Relaxei.
Voltei pro meu lugar e foi menino cagado, mijado, dando birra, com medo do Papai Noel, até 10 da noite. Quando tirei a bota Carla Perez, fui ao céu. Troquei de roupa, peguei meu marmitex (não deu tempo de comer durante o dia) e fui comendo no busão. Enchi a pança. Ovo, linguiça, arroz e feijão. Dormi como uma porca no busão. Cheguei em casa, agarrei a Nininha e dormi de um lado só. Sonhei com Titia Herodes – a queridinha das criancinhas. E amanhã cedo uma vizinha que me deu um papagaio vai levar ele pra mim. Não vejo a hora. Sei lá, acho que gosto é de bicho… Eh, lasqueira!

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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