Lulu do Canavial

Presente de Grego

Inhaim?

O carteiro bateu no portão de lata do meu barraco. O papagaio gritou “vai tomar no cu, vai tomar no cu”, a Nininha latiu, minhas galinhas aprontraram uma gritaria. O moço do Correio falou:

“Tem encomenda para a senhora do Correio,. Assina aqui.”

Entregou uma caneta daquela BIC que a gente come até a ponta. Eu não sabia assinar. Estava lavando roupa, toda molhada, os “pé frio”. Peguei a caneta e fiz um xis num lugar onde eu tinha que assinar. Não sei assinar assim direitinho. Dei uma rabiscada. Era pra eu pegar a encomenda no Correio. Fiquei curiosa. Seria quilo alguma bomba que a loura mandou pra mim? Ou as cinzas do Papai Noel, o “Plabo”?

Troquei de roupa, passei batom (não apareço em público mal arrumada) e levei a Lolosa comigo. Tava corrida, preparando a ceia de Natal. Vinha todo mundo lá de Curralinho, inclusive o Uostim, meu sobrinho que é o capeta. Peguei o Corcel (as galinhas cagaram em cima dele), peguei um “barde” e joguei uma aguinha. Caríssima a prestação, R$ 54,54, e essas galinhas nojentas aprontando com o meu possante. O carro não pegou. Estava passando dois “nóias” e eu eu: “Oh, ajuda a empurrar aqui que pega no tranco”. Os “nóias” batidão empurraram e o bicho pegou. Soltou um fumação preto que dava pra fazer bacon.

Peguei a Lolosa. Chegamos no Correio, deixei o carro ligado por garantia. Era uma caixa enorme. Seria uma televisão? A minha tava com “proseio e feição”, mas chiando mais do que mandi. Assinei uns papel e eu e a Lolosa pegamos uma de um lado e a outra do outro lado e carregamos a caixa pro Corcel. Perguntei quem tinha mandado.

A mocinha do caixa, com cara de bosta, daquelas que não se conformam de ter que trabalhar, falou: “Besta’as Shopis”

– Lolosa, e se for uma televisão. A Babi de Joana D’Arc, macumbeira é poderosa. Pedi a ela uma televisão de um “homi” rico, mas véio”;

Fomos voando pro barraco. Foi aquela peleja, tiramos e caixa e abrimos. Era um “micro-ônibus” novinho. A Lolosa me corrigiu: “micro-ondas”. Agradecimento porque eu tinha salvado a vida do Papai Noel. Enchi o “zoio” d´´agua.

_Vamos abrir esse trem.

E tira plástico cheio de bolinha e pus em cima de uma cômoda vermelha na cozinha. Ligar onde: Entrei em parafuso. Tinha que chamar o Franklisberg, o Frankis da lojinha do bairro, a Torra Tudo. Lolosa foi buscar ele.

Frankis chegou, entrou e falou: “Tomada de três pinos. Coisa muderna” Casa de pobre mal tem tomada e quando tem fica dependurada. “Posso trocar. R$150 paus com a tomada e o serviço”. Pobre é uma desgraça mesmo. E eu que nem sabia usar aquele negócio. “Fechado, pode trocar”.

Ligamos o micro-ônibus, mais branco que caixão de virgem. Piiiiiiiimmmmmmmm. Apareceu um monte de número num cantinho. Tinha o manual, mas nem eu nem a Lolosa “sabia” ler. Aquelas letras miudinhas, parecendo bula de remédio. Tinham uns desenhinhos.

“Lolosa, vamos comprar pipoca? As filhas das madamas que eu trabalho tudo faz. Cheira a peido, mas…”

Lolosa comprou. Lemos “caution” Sei lá o que é “caution”? Fomos pelo desenho. O trem começou a girar lá dentro. E o saquinho foi crescendo. Parecia coisa de outro mundo. Uma carniça. De repete apitou. Fomos abrir e subiu um fumação. Tinha um monte de “peruá”. Vamos assim mesmo. Resolvemos abrir um litrão e tomar tirando gosto com pipoca. Tem que tomar cuidado para não quebrar os dentes. Custa os olhos da cara.

Nem sei usar esse tal de micro-ondas direito, senão assava o frango de Natal nele. Esse foi um verdadeiro presente de grego porque nunca vou aprender a usar. Minha geração não é de “butão”. Ela é de fogão. Se bestar, é à lenha…

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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