ColunasLulu do Canavial

Meu barraco virou albergue #%/@….

Inhaim?

Era para estar tudo bem, mas tô com uma pulga atrás da orelha. A minha prima Leninha, que usa “Duce Cabana”, ganha dois salários e mora na capital, veio para passar um fim de semana e faz um mês que não vai embora do meu barraco. Caramba. Bem que eu vi que as malas estavam pesadas, parecia que tinha o corpo esquartejado daquele japonês dono da Kitano. Leninha foi ficando. O tempo passando e ela só me dando despesas. Abria lata de Leite condensado e bebia uma inteirinha no bico, os “iorguts” com “cereales” que eu custo comprar, não sobrava nada, a Activia, então, vai tudo. Come prato de pedreiro de obra. Só dorme, com aquela baba grossa no canto da boca, no sofá de napa amarela. E ainda reclama que a coluna dói por causa da ripa do sofá. Está pegando o boi com a vaca e tudo, como diria meu amigo Chico das Cabaça.

Peraí: a barriga da Leninha está crescendo. Sente queimação, que os ricos chamam azia, e arrota igual dragão de São Jorge. Toma sal de fruta sem parar. Come e “vumita”. Pensei, ‘Vou pedir ajuda pra Lolosa’. Mandei um “uatis”: Lolosa, tem alguma coisa acontecendo. Nós duas, dentro de nossas medicinas raizeiras, desconfiamos que Leninha está buchuda, embarrigada, com o buchão pra acolá, com o pão no forno, com o bacon na gaveta, grávida. Aí fudeu com ph, dois dês de Toddy e trema no O.
Apertamos a Leninha, que era secretária na capital: “conta a verdade”. De batom vermelho, a bandida falou que tinha embarrigado de um grandão dois por dois. O patrão mandou ela embora quando ficou sabendo da barriga e ela voltou pro interior.

Resolvi levar Leninha no médico do Posto de Saúde da minha cidade. Ela só tinha”Susi”. O médico (com cara de quem comeu e não gostou), usou o “esteroscópio” na barriga dela. Nem olhou na cara dela. Tem médico que não olha na cara de pobre, né? Já prestaram atenção? Pediu exames. Tudo pelo “Susi”. Demorou pra cacete. Pobre é uma desgraça. Antes tivemos que pegar fila no Posto de Saúde que é maior do que a da Caixa. Uma velharada. Tudo disputando doença. Velho disputa doença. Se um falava que estava com dor no peito o outro dizia que tinha marca-passo. Teve até uma veinha, sem um dente na boca, que disse que ia fazer uma operação de fimose.
Voltamos lá depois de uma eternidade em que a Leninha não parava de comer, me dando prejuízo. Chegou nossa vez de mostrar os exames para o médico carrasco. “Você não está grávida. É gravidez psicológica”. Puta que o pariu. O médico disse que o problema da Leninha era PPBV (puro peido, bosta e verme). Passou Lacto Purga, Luftal (compramos genérico) e vermífugo. Mais dinheiro.

Toma, bandida. Leninha cagou e peidou a noite inteira e não me deixou tirar um cochilo. Tedão escutava os rojões e respondia lá fora. Assim que amanheceu foi na minha privada de buraco. Pediu papel higiênico. Eu falei: usa sabugo de milho, que serve para limpar, coçar e ainda pentear o cabelo. Era tanto verme que a privada lá embaixão parecia um copo de sal de fruta de tanto que as lombrigas ferviam.
Chamei a Leninha num canto: “olha minha fia, arruma um emprego e um canto para você ficar”. Leninha foi no orelhão e ligou para o ex-patrão. Ele aceitou ela de volta (tinham caso). Leninha voltou para a capital e eu fiquei com a conta do Armazém do Ditão. Joguei pedra na cruz…

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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