ColunasLulu do Canavial

“Quase matei o moleque mijão”

Inhaim?
A grana tá minguada e uma das minhas patroas ofereceu-me um bico: ficar de babá para o filho dela por quatro dias. A Dona Luci Silva Rego Dourado e seu marido, o Dr José Perpétuo Rego Dourado, iam passar quatro dias na Argentina em segunda lua de mel. Fui para a casa deles, uma mansão que tem água quente para lavar a bunda depois de fazer as necessidades. Ia ser a babá do Noah, de dois anos, menino fresco, mimado, nunca andou de pé descalço. Isso para ganhar R$ 30 por dia, mais refeição e vale-transporte. Viajaram e eu fiquei. Só tinha R$ 150 na poupança, dinheiro pra comprar milho pras galinhas. Tinha que trabalhar. Buuuummmmmmmmm. Que menino indo!
O moleque me cuspiu na cara.
-Ah, seu peste, você me paga.

Noah só come Sucrilhos, toma leite sem lactose (nunca tinha visto isso), tem asma e usa uma bombinha. Chia igual gato, mas é o capeta em forma de gente. Uma hora caga demais da conta, outra hora fica entupido, que tem que usar até um supositório de glicerina. Ainda usa fralda. Uma tal de fralda “Jons”. Coisa de gente fresca. Por mim, enfaixava esse menino num pedaço de lenço, e prendia com fita isolante. E foi o que eu fiz. Cortei um monte de lençol e embrulhei o moleque. E era esse menino mijando em eu trocando pano. Dava uma lavadinha e pronto. Na casa tinha empregada. Ela achou esquisito, mas como Lulu é Lulu, tem sempre razão. Nem dei pelota para ela. Achei boa foi a comida. Cada bifão. Tirei a barriga da miséria. Parecia que era eu a patroa.

O menino tinha que tomar banho de sol. Vitamina D, recomendou-me a mãe fresca. Peguei a mamadeira e dei leite errado, de vaca. Deu caganeira no menino. O menino chorava o dia inteiro igua um carneiro. Béeééééé. Fui dar maçã. Não quis. Dei pêra. Tudo raspado. Nada. Dei banana. Cuspiu. Capeta dos infernos. Fui na geladeira, peguei um talo de “mortandela” e dei pare ele. O bicho chupou a “mortandela” com vontade, com a cara boa. Também, pudera. A pobreza tá no sangue: a mãe era uma vendedora das Casas Bahia que deu o golpe do baú.
Era hora do primeiro banho. O menino soltava pum igual água com gás. “Mortandela”. Entrou água no ouvido dele. Deu, claro, dor de ouvido. O moleque chorou a noite inteirinha. Não preguei o olho. Esquentei um pano de prato no ferro de passar roupa e coloquei perto do ouvido dele. A dor passou já eram 6 horas da manhã. E eu dopada, “trespassada”.

No outro dia, a empregada chegou. Mandei (é bom mandar em gente). Faz um café bem forte pra mim e um misto com queijo prato”.
Comi e Noah já quis mamar. Dessa vez dei o leite certo. Foram 4 dias de peleja. O menino emagreceu, o casal chegou.
-Oh, meu Noahzino, você está com a cara fina…”
Peguei o meu dinheiro, tirei a roupa de babá e casquei fora. Acabei de crer: eu não passei a fila para ser mãe. Nem quis… Vai saber?

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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