Opiniões

Ai virginossinhóra… será que já é pra aplaudir?

Há tempos que percebo que o momento do aplauso em um concerto erudito é para muitos um momento de tensão. Num show de rock ou de samba, a rigidez, que o protocolo do teatro impõe, se perde e ninguém se sente constrangido em externar sua satisfação em frenéticos bater de palmas, mesmo que seja durante a música executada.

Historicamente falando, temos uma origem ritualística e religiosa para o aplauso. Em algumas culturas, como na Grécia antiga, bater palmas era para chamar a atenção dos deuses pedindo proteção. Os romanos trouxeram essa tradição grega para si, e aplaudir passou a ter também o significado de aprovação.

Em discursos políticos, por exemplo, o aplauso passa a ter então uma função significativa na conquista da popularidade do candidato a uma cadeira na casa de leis, e assim, homens de poder levavam consigo centenas de asseclas prontos para aplaudir efusivamente em seus discursos. Essa tática funciona até hoje nos comícios, programas circenses e programas de auditório (a famosa „claque‟)… (qualquer semelhança entre os três exemplos não é mera coincidência!)

Mas, em que momento criou-se uma regra para quando e como aplaudir em um concerto de música erudita? Acredito que isso seja mais uma herança do século XIX, quando o músico passa a ser visto como um ser especial, até mesmo divino, e aplausos durante a execução de uma obra perturbaria o entendimento da peça como um todo. Até o séc. XIX, portanto, os teatros eram como praças de alimentação dos shoppings atuais: comemos, bebemos e conversamos sem a menor consideração para aquele músico que está ali tocando um teclado ou um violão, né? Então, os espetáculos de ópera e ballet até o séc. XIX eram regados a vinho e muita comida! Muitos andavam pelo teatro e vai saber o que acontecia naqueles camarotes! Sem falar que as personagens podiam até interagir com o público.

Mas já que vivemos no séc. XXI então que atendamos a algumas exigências atuais que podem nos escravizar, mas que basta entender para perder o medo. Vamos por partes:

  1. Quando aplaudir?

Em concertos sinfônicos e recitais é de se esperar que os aplausos venham no final de cada obra. Se for uma obra com um único movimento, como “O aprendiz de Feiticeiro” de Paul Dukas, por exemplo, ou “Tico-Tico no fubá” de Zequinha de Abreu, fica fácil, pois elas têm seu „começo, meio e fim‟ em um mesmo “pedaço” musical. Se for uma sinfonia, um concerto, uma suíte ou uma sonata, dentre outros, há de se esperar que o último movimento seja terminado para aí então aplaudir. Por exemplo, a Sinfonia 5 de Beethoven (aquela do tchan tchan tchan tchaaaaaaaaaan) tem 4 movimentos: 1-Allegro con brio, 2- Andante con moto, Più mosso – Tempo I, 3-Scherzo AllegroTrio – Scherzo e 4- Allegro – Presto. Cada um destes movimentos terá seus “inícios e fins”, e por mais tentador que seja, aplaudir após algum destes movimentos é uma gafe, então reservamos tudo para o final do “Allegro presto”, que é o último movimento. Assim sendo, é sempre bom olhar antes no programa recebido na entrada do teatro, contar quantos movimentos possui uma obra e literalmente “contar” quantas vezes o maestro termina cada trecho. Geralmente no momento do aplauso os rostos do maestro e dos músicos, ou do músico solista, saem do transe em que eles se encontram dizendo “aqui podem aplaudir”.

Já na ópera e no ballet, toda esta regra vai por terra! Aplaude-se quando entra a prima dona (cantora protagonista) ou a prima ballerina (bailarina protagonista), aplaude-se quando termina uma grande ária (solo da cantora ou cantor) ou variação (solo da bailarina ou bailarino) e aplaude-se quando termina um concertato (vários solistas cantando ao mesmo tempo). Ou seja, dentro da rigidez do protocolo nos teatros há um oásis chamado “ópera e ballet”, é como voltar no tempo e usufruir sem tantas regras, mas lembre-se! Comer, beber, passear pelo teatro, falar ao telefone e usar os camarotes como ninho de amor continua não podendo!

2. Como aplaudir e quanto?

A intensidade dos aplausos independe se estamos em um ballet ou em um concerto sinfônico. O aplauso é a expressão maior da satisfação do público, é o termômetro que diz ao artista se ele agradou ou não. Percebo que aqui no Brasil muitas pessoas aplaudem de pé mesmo não tendo adorado o que acabaram de ver e ouvir. Aplaudir de pé deveria ser o suprassumo da aprovação do público e não apenas um costume adquirido erroneamente. Mas se você realmente amou o que acabou de ver e ouvir, então não poupe suas mãos! Aplauda muito, grite bravo (se for para um homem), brava (se for para uma mulher) e bravi (se for para um grupo).

3- O famoso “Bis”

Esse fenômeno só deveria acontecer depois do público insistir e aplaudir muito! O “Bis” não é parte óbvia do concerto, ele é esperado, mas não deveria acontecer sem os aplausos insistentes.

Uma vez fui a um concerto de um coro masculino vindo do leste europeu. Cheguei ao teatro sem saber bem do que se tratava, pois foi um convite de última hora, e quando os coralistas entraram no palco usando batinas eu já levantei a sobrancelha direita e ouvi meu alarme interno dizendo “o ou…. acho que vai ser uma roubada”, e de fato foi… um repertório de música sacra do início do Barroco numa manhã de domingo sem café da manhã foi uma experiência fofa… acredito que as torturas da KGB eram cócegas perto da chatice que foi… a fome já apertava, o sono então já me trazia alucinações de empadinhas flutuantes e coxinhas dançando rumba… eis que finalmente acabou aquele martírio e quando eu estava já para me catapultar para fora do teatro, que obviamente aplaudia de pé (para espanto dos gringos), algum filho de uma boa mãe gritou „bis‟… nesse momento eu me transformo em Maysa e canto internamente „Meu mundo caiu‟ e mais uma vez tive que me sentar e ouvir o restante que faltava para acabar de me matar… Portanto… Tenhamos parcimônia e consciência com o „Bis‟! Porfa!

Nazir Bittar

É Doutor em música pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Mestre em Musicologia Etnológica pela Universität zu Köln - Colônia / Alemanha, e Bacharel em música também pela Unicamp. Maestro da Orquestra Sinfônica de Franca, Orquestra Jovem de Franca e do Ensemble Vocal OSF. Atua como diretor cênico e artístico de óperas e musicais.

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