Opiniões

Chuva de terra

No momento em que escrevo essas linhas está um calor seco, o ar está sujo, o sol está vermelho, sanguíneo, a temperatura para além dos 35 graus célsius por volta das dezesseis horas. Ouvi no rádio que está chovendo terra em cidades da região de Ribeirão Preto, aquelas rodeadas de canaviais… A cana foi colhida e o vento passeia nos descampados, levando terra seca e restos de palha que sobem e vão pousar nos centros urbanos. Um parente mandou um vídeo mostrando um resíduo de floresta em chamas na beira da rodovia. Mais cedo passei pelo rio Canoas, ali na divisa de Minas, que está com um fio d’água apenas e o seu leito parecendo uma estrada abandonada.

Não tenho vocação para catastrofismo nem talento para descrever tragédias… Por isso paro por aqui com a descrição do clima de Franca, do dia 8 de setembro de 2021. Mas a situação é visível. O clima está mudado. As chuvas tardam mais e mais. O ar está cada vez mais seco, quente, difícil de respirar. Falo destas coisas porque tenho saudades da brisa constante e fresca de Franca, de que me gabava algumas décadas atrás, quando falava da minha cidade adotiva em outros rincões. Havia dias nublados e de garoa, no tempo da minha adolescência, mesmo durante o inverno…
Parece que passa da hora de uma reação geral, de uma efetiva mudança de comportamento em relação à vida, em relação ao meio ambiente. Falar em cuidar do planeta, no entanto, incomoda a muita gente pelo fato de prevalecer na sociedade antiga cultura de exploração ilimitada dos recursos naturais. Por isso a proposição soa pretensiosa e até insolente para as pessoas que exploram os recursos naturais ou que têm suas atividades profissionais ligadas ao meio ambiente, porque supõe alguma regulamentação no uso desses bens, em benefício da sustentabilidade. Uma outra razão importante é o fato de a maioria das pessoas estar inteiramente envolvida na obtenção de comida, moradia, meios de preservação da saúde, da educação, enfim, obter estabilidade nesses quesitos.

Há, ainda, na sociedade atual, a despreocupação das pessoas com o interesse geral, que fica relegado aos governos. Mas é trivial ouvirmos de autoridades públicas, por aqui, que cuidar do planeta é coisa de ambientalistas desocupados. Neste caso é um sinal claro de despreparo e ignorância da função pública. Mas também é fato que parte da população mundial luta contra a fome. Sabemos que nas nossas cidades há gente procurando comida no lixo. E que morar em condomínios é mais seguro do que nas periferias das cidades. Por isso é fácil perceber porque as pessoas que lutam por necessidades básicas não sabem o que seja cuidar do planeta. Precisam sobreviver num mundo em que todos os meios de produção de alimentos e bens essenciais são controlados por poucos.

Portanto, restam aos governos cuidar do interesse geral, inclusive em matéria global, como o equilíbrio do clima no planeta. Mas infelizmente são poucos os que têm vocação para isso, e portanto, para se desincumbir desta missão essencial (Joe Biden, o presidente americano, parece feliz exceção, no caso). Para tanto, no geral, precisam ser pressionados por seus eleitores. Mesmo assim há os que resistem violentamente, como o governo brasileiro, por absoluta ignorância e preconceito.
Enfim, resta aos cidadãos esclarecidos cuidar disso. Mas parece haver uma espécie de vergonha em defender a causa ambiental. Ainda há certa timidez em se portar como alguém que possa ser tachado de ambientalista. Mas com a população do mundo chegando perto do limite de tolerância do planeta, parece que é hora de deixarmos a timidez de lado e cuidar do assunto com seriedade, ou iremos figurar no último item da grande lista de espécies extintas da Terra.

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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