Opiniões

“Fui tapeada no SPA”


Inhaim?

Ganhei uma semana no SPA de Sorocaba de presente de uma das minhas patroas, a dona Daphne Vasconcelos Lins Maldonado Rios Lafayete (isso não é nome. É rascunho da Bíblia). Dona de uma rede de hipermercados, ela sempre me dá frutas amassadas, verduras e legumes murchos. Ela acha que me engana. Gente boa, mas metida a besta. Deu sorte de casar com um “véio” rico que banca ela em tudo. Se brincar, ela não precisa nem trocar o “modis”. Tem quem o faça por ela.

Fui pra Sorocaba no carro com a patroa. Um carro lindo com ar condicionado (no meu Corcel o ar é a janela aberta e um leque da 25 de Março que eu carrego para salvar minhas crises de menopausa). O carro é um belo “lambiasbordinha” com motorista e tudo. Um tesão o motorista.
Fui entrar no carro, o motorista abriu a porta pra mim. A última vez que abriram a porta para mim foi quando eu estava puxando uma vaca lá na roça e o seu Zé do Grotão abriu porteira pra eu passar com a vaca, claro. Fiquei tão entusiasmada que “trupiquei”, caí com bunda para cima e acabei mostrando minha calcinha com um furo bem no rumo do furico. Que vergonha! Coisas do passado, mas pobre é diferente mesmo.

Chegamos no SPA. Um chique. Pensei: vou tirar a barriga da miséria, mas, para a minha tristeza, eu fui servir de babá para a patroa da biscate da Daphene. A “muié” não levantava a bunda da cadeira nem pra pegar um copo d’água. Ela era de biquíni na piscina e eu de uniforme (vestido bege, cheio de botão, na “artura do joeio”, um tênis branco chulezento e uma touca na cabeça que eu “soava” tanto que escorria pelo rego). Muita esmola, o santo desconfia.
E que diabo da comida desse SPA? Só tinha “foia”, umas rodelas de tomate. Nem um goró. Só água. Gente rica é estranha. Pagar uma fortuna pra passar fome. Se ela quisesse passar forma era só ficar uns dias no meu barraco comigo, o papagaio que só fala: vai tomar no cu, vai tomar no cu”, a Nininha, o Tedão, meu burro superdotado, e as “galinha”. Gente e esse tal SPA que tinha tanta gente gorda? Cheia de pneu, que se acumular água ali dá “foco de denga”.


Tem tráfico de comida dentro do SPA. Fica numa fazenda e eu fiz amizade com uma velhinha que colhia manga na cerca e escondia num riacho. De noite, a gordaiada ia tudo lá comer no escuro. A Dona Daphne mesma traficou. Todo dia ia o motorista levar o jornal do dia para ela e ela subornou a empregada que colocava, no meio do jornal dobrado, salaminho e queijo fatiado. Tinha uma mulher que estava tomando um vidro de xampu. Acharam que ela estava louca. Era leite condensado. Puro tráfico de comida. Tinha gente chorando por causa de comida (eu, inclusive) roubando alface do prato do outro. Um vingativo expulso do SPA porque estava fazendo sacanagem com namorada na piscina, só de raiva, alugou um helicóptero, encheu de sonho de valsa e jogou em cima do SPA de “pericópter”). O SPA virou um MMA. Os gordos brigando e rolando no chão para pegar um bombom.
Mas eles ficam esfomeados e olham pra gente como se a gente fosse um bife acebolado. Já disse: rico é diferente.
A semana demorou a passar. Ganhei uns trocados a mais, muitos quilos a menos. Na volta passamos numa churrascaria e comemos igual leão. Só ali foram uns dois quilos que pegamos.
Cheguei, enfim, no um barraco. Fritei “torremo”, um monte de ”mortandela” e eu e minha amiga Lolosa bebemos quatro litrão. Isso é que é vida: viva a gordura localizada e a celulite esburacada. E eu que nem sabia o que era SPA…

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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