Opiniões

Me segura que eu tô com a pomba-gira”

Inhaim?

Que diacho é esse de comichão no meio das pernas? Minhas calcinhas ficam tão molhadas que tenho que trocar toda hora. Tô fazendo faxina e vem aquele calorão na cara. Aí começo a desejar o Chay Sued, na novela, nos meus braços. Aí, fico molhadinha. Comecei a bater bolo sem parar, a fazer justiça com as próprias mãos toda hora. Olhava até com malícia para o Tedão, meu burro superdotado. Comecei a ficar preopupada. “Lolosa, me acode”.
A filha da mãe demorou a responder. Aí veio o plim. “Amiga, você pode estar com uma pomba-gira na sua cabeça. Pode ter baixado uma”. Que diabo de pomba-gira era isso? Ela me explicou que quando ela (a pomba-gira baixa, a pessoa fica com tesão, subindo nas paredes até por conta do Fernando Caruso). Pedi ajuda pra Lolosa. Implorei pra Lolosa. Ela falou pra eu pagar umas duas cervejas Antarctica Original que ela ajuda (bicha mercenária).

Marcamos lá em casa. Lolosa ficou de me levar numa médium. Se essa pomba-gira baixasse, ela tiraria. Cobrou os olhos da cara. Eu tinha umas economias. Fui até a Caixa, pedi aquela mocinha que fica de cara feia ajudando os outros no caixa eletrônico para me ajudar a tirar o dinheiro. Não sei mexer nessas coisas “moderna”. Tá tudo moderno. Dia desses passou no meu barraco aquele povo que chega sempre na hora do almoço pra fazer pregação, conhecidos como “queima-arroz”, e a mulher me falou: “me dá o número do uátis que a gente manda a mensagem da Bíblia”. Modernidade. Peguei a grana e fui-me embora pensando alto: moça mal comida, essa do caixa eletrônico.

A médium pediu ramos de arruda, pinga e charuto. Putz, a mulher já cobra e ainda pede arruda, pinga e charuto? Achei que estivesse embutido no preço. Arranjei a arruda na vizinha de uma das minhas patroas e comprei as bagaças na venda do Joaquim Figurão. Levei pro barraco. Cinco horas em ponto chegaram as duas. A benzedeira mandou eu sentar num banquinho. Lolosa ficou em pé. De repente começou a tremer igual gelatina e passar o galho de arruda no meu corpo, na minha cabeça. “Insanus omnis furere credit ceteros, sai desse corpo que ele não te pertence”. E entreva em tremeliques, rodava igual baiana de escola de samba. De repente parou. Pronto, a pomba-gira vazou. Pegou o dinheiro e foi embora. A pomba-gira não, a médium.

Paguei as cervejas pra Lolosa, que me controu uma história de arrepiar os cabelos enquanto tomava a cerveja. O pessoal que cuida do cemitério da minha cidade achou uma cabeça de porco dentro de um túmulo. Lolosa explicou que era pra segurar o amado. Cremdospadri. Morro de medo. Xocotô ovão de pato! Bati três vezes na madeira da mesa do boteco. Sai de mim. Cabeça de porco é oferenda pro sete-pele. Amarra o amado. Se algum dia eu precisar, já sei em qual cemitério eu vou. O meu maior problema é arrumar um amado pra amarrar….

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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