Opiniões

Os Caminhos da Vida

Quando estava com quinze ou dezesseis anos ouvi de um colega de trabalho, uns três anos mais velho, que: “a vida parece muito, muito longa até a tua idade. Mas, aos dezoito anos o tempo começa a correr, você verá…” De fato, notei isso poucos anos depois. Talvez, se não fosse por essa aguçada observação do colega, pode ser que até nem tivesse percebido com clareza esse interessante fenômeno. Mas, penso que todos nós notamos isso. Pelo menos, nunca vi de criança reclamar que o tempo passe depressa… Talvez seja por ser a infância o mais extraordinário período de aprendizado que temos. Desde a adaptação como indivíduo autônomo, desligado da mãe, respirar, até o equilibrar-se e andar sobre dois pés, alimentar-se, compreender o entorno, com toda a sua complexidade, ser iniciado na cultura da espécie, etc. Aprendemos tudo o que é necessário para manter a vida nos primeiros quinze anos. O resto é sofisticação que a sociedade impõe para que vivamos bem. Mas, do ponto de vista biológico, em torno dos quinze anos já estamos prontos. Podemos até nos reproduzir.

Agora, do ponto de vista social, há algumas regras que nos indicam uma segunda etapa de luta para nos firmarmos no meio. A sociedade exige que sejamos úteis para nos aceitar com alguma consideração. E aqui não há regime político-social que dispense tais qualificações. Daí, partimos para escolher uma profissão. E dada a complexidade da sociedade atual, é nesta fase que os grandes defeitos dos sistemas políticos se apresentam e também as diferenças das escolhas individuais. Há uns poucos indivíduos mais bem dotados, outros obstinados, que se destacam em qualquer meio, e há aqueles que sucumbem ante as adversidades. Neste último caso a maioria, infelizmente. E descobrimos que os defeitos estão nos homens e não no meio, por todas as diferenças e desigualdades.

E por fim, ainda que vitorioso em seus combates nos meios natural e social, resta ainda ao humano ajustar a sua consciência, a sua batalha interior. O êxito na disputa biológica inicial, prova-o a emancipação à fase adulta. Para provar o sucesso no meio social há máximas, como aquela que fala de escrever um livro, plantar uma árvore, engendrar um filho…Mas qual seria a prova do sucesso na busca interior? Entregar-se a uma religião, ou talvez escolher e seguir os ensinamentos de um guru? Vários são os caminhos para essa batalha, que acompanha a todos desde a emancipação até os umbrais do túmulo. Por acaso e, certamente por ser o resultado de leitura recente, me lembro dos ensinamentos de Dom Juan Matus, um xamã da tribo Yaqui do Estado de Sonora, México, entrevistado pelo antropólogo Carlos Castañeda, que publicou a entrevista no livro que virou best-seller, “A Erva do Diabo”, em que descreve experiências com plantas alucinógenas. O velho índio não indica caminhos, mas oferece parâmetros para a sua escolha que podem ser úteis aos céticos mais recalcitrantes que dispensam intervenção nessa matéria: “um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o seu coração diz…examine cada caminho com muito cuidado e deliberação. Tente-o muitas vezes, tanto quanto julgar necessário. Depois pergunte-se, e só a si, uma coisa: este caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom, se não tiver, não presta…”

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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