Opiniões

“Quebrei o pau na gafieira”

Inhaim?

Resolvi tirar a barriga da miséria e quebrar tudo. Eu e a Lolosa combinamos uma noitada de Forró do Zé do Foli, na Casa de Shows Milk Boi, no bairro Puxa Faca. Ia ser o bicho. Arrumei minha roupa de gata: bota preta até o joelho cheia de franjas, mini saia de napa preta (imita o couro, parece que não é, sabe como é), “topen” por baixo da blusa mostrando a barriga (banhas, mas não tô nem aí). Brinco de argola na orelha parecendo roda de “bicicreta”. Sombra verde, batom vermelho-biscate, “ruge” pra dar aquele ar de saúde (ando comendo muito ovo frito com arroz, a gente fica meio pálida, né?). A base parecia massa corrida.” Lolosa, te pego 11 da noite”, mandei um uatis. Ela respondeu: “Vô tá pronta”.

Rachamos a gasolina do Corcel. Coloquei até as almofadas de onça no banco de trás. Era pra tombar. A oncinha que acendia e fechava os olhos quando eu brecava tá lá, firme e forte. Elogio de público e de crítica. O forró tava lotado. A luz verde e vermelha lembrava aquela casa de shows que eu vi numa revista de uma patroa: Coco Bongo, em Cancun, que eu não sei nem aonde fica. A casa tava tão totada que parecia encontro do SUS. Encontro de “ite” – artrite rinite, otite, laringite,tendinite, bursite, bronquite, labirintite, estomatite, cistite,nefrite, celulite então.. As pernas das mulheres parecendo queijo suíço de tanta celulite (vi minha patroa falando isso uma vez, quem sou eu para conhecer queijo suíço?). Cada buraco nas pernas parecia uma cratera na lua.

Eu e a Lolosa sentamos numa mesa perto da Banda “Toca qui nós dança”, pedimos uma garrafa de Pitu,dois copos americanos, limão e uma porção de batata frita mergulhada na gordura com queijo curado em cima. E m Halls pra purificar o hálito para beijar.
Um “homi” alto, careca, 1001 (um dente faltam dois, outro dente, faltam dois). Os dentes dele eram bons para abrir garrafa, pensei, mas afastei o pensamento porque homem, homem mesmo, de saco roxo como disse aquele safado daquele Collor, tá difícil. Usava desodorante Avanço (adorooooooooo) e a camisa aberta até a metade mostrando o cabelo “dos peito” mais enrolado do que os do Caetano na Jovem Guarda. Deu-me uma gurdada na cintura e começamos a dançar – dança de mala-coxa, dança de engoma calcinha, dança de mela-cueca. Me rodou tanto que fiquei tontinha. Era a Pitú (com acento no u).
Lolosa sentada. Ninguém tirava ela para dançar. Até que um “homi” de bom coração ficou com dó e tirou biscate. Ele perguntou pra Lolosa: “Por que ninguém te tira para dançar?”. Ela disse “Eu uso ponte”. E ele: “Então alguém cagou debaixo da sua ponte”. Nem o Halls deu conta do bafo de onça da Lolosa. Eu era acostumada com aquele cheiro de anão morto debaixo da língua, mas os outros não.

Lolosa chegou perto do meu “homi” e chamou ele para dançar com ela. Foi quando o tempo esquentou. Eu avancei logo no cabelo da bisca e ela no um. Rolamos pelo chão, até que um viadinho, dono da casa, de cabelo de gumex, expulsou a gente da casa.
-Ow, Lolosa, eu custo a arrumar um “homi” e você ataca? Larga de ser biscate”.

“Você que tava toda metida com aquele “homi” de chapéu”.
Entramos no Corcel e fomos embora. Deixei a Lolosa na casa dela e jurei nunca mais olhar na cara dela.
No outro dia, Lolosa ligou chorando: “Ow,Lulu, dá um desconto, somos amigas há 40 anos”. Fiquei com dó: “Tá bom, Lolosa, tô te esperando aqui prumas caipirinhas com “torremo”.
Ah, o Tedão, a Nininha, minhas galinhas, o ganso e a Lolosa são tudo o que eu tenho. Mas que arranquei umas duas dúzias de cabelo loiro dela, eu arranquei. Não sou mulher de levar desaforo pra casa. Nem desaforo.. e nem chifre.

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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