Opiniões

Uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Vaia, apupo, linchamento virtual, cancelamento!

Pelo que percebi pelos últimos textos, o assunto ‘aplauso’ rendeu muitos desdobramentos, até mesmo para assuntos profundos de como será o destino do tal aplauso, caso nossas expressões artísticas passem a ser virtuais. Mas isso será outro tema para um futuro próximo. Falaremos hoje sobre o oposto do aplauso, o ‘antiaplauso’ em suas diversas manifestações.

Conforme dito nos textos anteriores, não há um manual de instruções de como se deve aplaudir. Chegamos a diversas conclusões de que a expressão de agrado é algo muito pessoal e também varia de acordo com o ambiente no qual está inserida a performance artística.
Dissemos que o aplauso em um concerto sinfônico tem suas regras e que elas perdem a rigidez em óperas, ballets e shows. Todavia, não falamos da diversidade expressiva de formas como a reprovação e o desagrado com o evento artístico podem se apresentar.

Podemos traçar uma linha que vai da mais branda e polida, que seria, no meu ponto de vista, a reprovação interna, apenas externada pelo bocejo e olhos lacrimejantes e pela energia fraca do aplauso, quase inexistente, e pensando: ‘pela hóstia consagrada, que coisa horrível foi isso?’, até a mais grosseira das formas de desagrado, que seria atirar no artista aquilo que estiver à mão, como comida, latinhas de cerveja, pedras e o que mais a imaginação puder oferecer!

Ouvimos sempre falar dos famosos ‘tomates’ que eram arremessados nos teatros europeus e isso não é lenda! Jogar alimentos podres em adversários já era um costume dos romanos, mas como ninguém sai de casa para ir ao teatro com um saquinho de comida podre, então, quero acreditar que nos séculos 18 e 19, quando ainda se comia dentro dos teatros, a comida boa também era usada como demonstração de desagrado do público, o que fazia com que o frango assado pudesse voar novamente.

Em 1838 o poeta Giuseppe Belli afirma no final de um poema: “Deus nos salve dos tomates!”. O episódio mais famoso é de 1883 em Nova York, quando o ator John Ritchie foi atingido por uma enxurrada de tomates e ovos podres… Tadinho… entrou para a história como um omelete humano. Hoje em dia não vemos mais isso em teatros, mas já vi muito em shows ao ar livre as latinhas voadoras, hambúrgueres ninjas e, claro, barro e pedra…. um horror, engraçado, mas um horror.

Mas o que é isso na verdade? Vaiar um artista é algo aceitável? Qual seria a melhor medida para expressar nossa decepção? Confesso que não sei. Eu, como artista, nunca passei por algo assim, mas também nunca fiz pouco caso com a minha arte. Nunca levei ao palco um serviço mal feito que pudesse representar pouco caso para com o público, com a classe artística e principalmente com os compositores, que na maioria dos casos, já não estão mais encarnados para poderem reclamar.

Acredito, portanto, que a vaia possa vir num momento de inquietude do público mesclada com indignação daqueles que, entendedores do assunto, estão a pensar ‘o que esse ser está fazendo com essa obra divina?’ e dai o ‘uhhh!’ sai pela boca quase que como consequência. Euzinho já vivi situações em que eu pensava ‘coitado do Beethoven’ ou ‘ ai minha Santa Cecília, Verdi está se revirando na tumba’, mas nem por isso perdi o controle e vaiei. Engoli seco e esperei a oportunidade para me afogar em uma pizza com muito queijo derretido, que certamente salvaria a noite e a dor de cabeça.

Sou de uma época em que o máximo da reprovação a um artista era se levantar e sair durante a apresentação. Já é um grande avanço desde os tomates e ovos, mas creio que a dor de quem está no palco ao ver tal reação deva ser imensa também. Mesmo que muitas vezes merecida, pelo mesmo motivo que citei acima como descaso para com o público e compositor, levantar-se e retirar-se ainda é, no meu ver, algo muito ofensivo.

Hoje em dia temos outras formas de expressarmos nossa indignação e desaprovação. No mundo virtual, temos duas situações muito comuns, que são o ‘linchamento virtual’ e o ‘cancelamento’. Em ambos os casos, o artista deverá encarar o inimigo mais oculto e que está protegido pelo anonimato da internet. Há registros de artistas que foram completamente aniquilados pela opinião pública e que sofreram xingamentos e ameaças em seus perfis das redes sociais (linchamento) e em outros casos a perda de seguidores (cancelamento). O que é mais assustador é que essa ‘vaia’ no mundo virtual reverbera mesmo depois do concerto ou show ter acabado. A boa e velha vaia tradicional acontecia no final ou no meio do evento artístico mas acabava por ali mesmo, o que faz com que os tais ‘linchamento e cancelamento’ sejam mais cruéis ainda, dando vez até mesmo às pessoas que sequer estiveram presentes no momento da vaia original e que se consideram na condição de perpetuar esse movimento de punição.

Com o advento das redes sociais, lá no início dos anos 2000, com o finado ‘Orkut’, abriram-se portas para que todos pudessem se colocar em evidência e, com o avanço tecnológico de computadores e celulares, uma pessoa totalmente desprovida de talentos especiais pode se tornar um astro bilionário do dia pra noite. Todavia, a mesma velocidade da subida pode ser da queda e o tal ‘cancelamento’ virou o grande terror daqueles que encontraram em redes sociais e aplicativos de vídeo o seu sustento e também a seiva que alimenta a vaidade oriunda de likes e compartilhamentos.

O apupo, portanto, tomou outras formas talvez até mais dolorosas do que uma vaia de antigamente. O grande tenor Luciano Pavarotti foi vaiado em plena Ópera de Milão! E ele já era o Pavarotti! Todas as divas que fizeram a ópera La Traviata foram vaiadas nessa mesma casa de óperas depois que Maria Callas deixou sua marca como nível único a ser atingido… tudo que ficasse abaixo daquilo era vaiado ocasionando muito desconforto, obviamente.
Hoje temos os tratores virtuais que ora içam alto, ora massacram até o sufocamento total, e é nessa trilha que precisamos caminhar de agora em diante, ainda tateando sem saber o que pode e o que não pode, com medo de gafes e palavras que querem e precisam ser banidas do nosso vocabulário e que do nada escapam para causarem aquele estrago. Nelson Rodrigues dizia que ‘A vaia é o aplauso dos descontentes’ e traz em seu texto ‘A verdadeira apoteose é a vaia’ uma visão bastante interessante de como podemos encarar a tão temida vaia. Segundo ele, as vaias que recebeu por ter feito o ‘teatro desagradável’ faziam parte já da rotina de quem resolve quebrar paradigmas e enfrentar tabus da sociedade. Portanto, caros leitores, a vaia pode ser um elogio se oriunda de idiotas ou obtusos? Somente Nelson Rodrigues para trazer essa reflexão tão pertinente!

Temos medo da vaia? Claro! Mas se pensarmos que Mozart, Beethoven, Nelson Rodrigues, Pavarotti, Caetano Veloso, João Gilberto, Ana Botafogo e tantos outros grandes já passaram por isso, então creio que não deva ser o fim do mundo um dia experimentar o gostinho amargo do anti-aplauso.
Eu particularmente não tô a fim de experimentar não, viu? Só falei por falar … pra ficar bonitinho o final, sei lá.. quero não.. tá bom como está afff… nem pensar.. Deus é mais…eita meda..

Nazir Bittar

É Doutor em música pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Mestre em Musicologia Etnológica pela Universität zu Köln - Colônia / Alemanha, e Bacharel em música também pela Unicamp. Maestro da Orquestra Sinfônica de Franca, Orquestra Jovem de Franca e do Ensemble Vocal OSF. Atua como diretor cênico e artístico de óperas e musicais.

6 Comentários

  1. Belíssimo texto,e coerente com os tempos que estamos vivendo, mas como disse e penso tab,sou desse tempo ,se gosto me levanto e vou embora,critica posso faze-la se de meu dominio e conhecimento for, mas prefiro não faze-la ate porque! O que o belo? Cada um tem seu conceito, as expressões são de cada um,prefiro e quando cancelo tab me coloco na linha de ser cancelado. Penso que aqui ,ali ou la,eu,ou outro cabe o respeito!

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