Opiniões

Vamos falar de novo sobre aplausos?

Na semana passada trouxe um texto quase didático sobre as questões de “como e quando aplaudir dentro de um teatro”, dúvida muito recorrente e “terror” do leigo nesse ambiente. O ato de aplaudir, entretanto, é algo muito mais do que o som criado quando as mãos de uma pessoa se encontram! Já repararam quantos símbolos se criam nesse simples gesto? Vamos observar:

Em algumas religiões, principalmente as não ocidentais, uma mão se une à outra para simbolizar o Yin e o Yang, o céu e a terra e como essa dualidade nos pertence. Há ainda palmas sonoras e não sonoras que despertam deuses, limpam chacras e silenciam todo um templo. Temos então um manancial de possibilidades para as diversas funções que são sugeridas quando mão direita encontra mão esquerda fazendo ou não algum tipo de som.

Aplaudir é uma expressão totalmente individual. Apesar de ser o mesmo gesto usando os mesmos músculos, não podemos confundir aplauso com bater palmas! Bater palmas é algo coletivo e que se espera que haja alguma sincronia entre os participantes. Não é irritante quando você vai ‘bater parabéns’ e tem sempre uma tia desgovernada que bate palmas atrasado ou no contratempo? Isso passa despercebido porque a tia desgovernada irá fazer certamente um “Canon” com a prima abobada (filha dessa tia, claro) que além de bater palmas num descompasso quase jazzístico também resolve cantar o famigerado “Parabéns a você” numa tonalidade talvez muito comum lá no planeta de onde ela veio, o que deixa um ser como eu tão feliz (SQN) e com vontade de fazer arremesso de bolo… mas isso é outra história…vamos retomar:

Bater palmas sozinho é coisa para nefelibata, bater palmas em conjunto deveria ser com alguma sincronia acompanhando uma música ou ritmo. Reparem também como cada pessoa bate palmas de um jeito – não há um padrão ou uma regra. Aplaudir não é bater uma mão na outra apenas, é bater as próprias mãos uma na outra! Já tentaram bater palmas com outra pessoa? É um exercício quase impossível de coordenação motora e sintonia fina que pode virar até briga caso uma palma vire uma bofetada.

Uma coisa que “bater palmas” e “aplaudir” têm em comum é a intensidade que ambos deveriam ter – uma que fosse no mínimo arrebatadora e expressiva. Em shows, festas de aniversário e concertos tem sempre aquele que bate palmas como se estivesse economizando tônus muscular para alguma competição de remo logo na sequência do evento! Palmas xoxas, que mais dão sono do que despertam qualquer sentimento de aprovação ou entusiasmo, são dignas de reprovação, pois se não sabe fazer direito então aprenda! É melhor lembrar-se que o alvo do aplauso é um artista que vive para ouvir esse som.

Bater palmas sem a devida intensidade e intenção é como tentar matar um pernilongo… Desculpem, mas tenho certeza de que ele não faz reverência para agradecer suas tentativas frustradas de assassinato! Suas mãos ficam latejando e vermelhas enquanto ele, o pernilongo, lá em cima no lustre rindo da sua cara pensa: ‘Obrigado humano por ser tão desconjuntado’.

Pensando na importância do aplauso na vida de todo artista, gostaria de compartilhar um conto que escrevi já há algum tempo que traduz, talvez, o que é o aplauso e a saudade que dá quando ele já não é mais ouvido. Espero que gostem!

Aplauso!

Procurou a campainha e não encontrou. Afastou um galho da primavera que já ocupava um espaço que não possibilitava mais saber onde iniciava o portão e onde terminava a parede. O que fez foi espetar os dedos e mais uma vez não encontrou a campainha. Resolveu então fazer aquilo que muitos fazem. Bateu palmas. Bateu novamente até que no fundo do alpendre surge uma senhorinha de seus 80 anos. Ele logo pensou: “como ela ouviu as minhas palmas?” Os olhos claros e opacos pela catarata se espremeram para reconhecer as feições do jovem rapaz. Num misto de insegurança em abrir a porta e curiosidade em saber se era ele mesmo quem estava ali, aproximou-se altiva, tentando assim forjar um temperamento que há muito tempo já não mais cultivava.

-“Dona Antônia?”

– “Antônia Rosa… eu mesma… entre! Eu já o aguardava! O senhor está atrasado! – disse com voz mais aguda, quase uma Rainha da Noite.

– “O trânsito me…”

– “Sei…”- sequer deixou-o terminar, agora com a voz já no seu tom grave natural da senescência.

Eles entraram na antiga casa assobradada. Pé direito alto, assoalho quase negro e muito brilhante. Os sofás de gobelin, o recamier vermelho com almofadas diversas, cadeiras de palhinha e um tapete cuja cor já não se podia mais definir faziam parte da decoração farta em cores e formas que ainda contava com cartazes que cobriam as paredes das salas. Juntamente com um gato gordo, seguiu desfilando em seu scarpin carmim altíssimo, a anfitriã até uma sala menor, onde, além de outros cartazes, fotos e bonecas de porcelana, ainda havia o piano de cauda, partituras espalhadas e discos… muitos discos. Ele procurou sua máquina fotográfica para registrar aquele momento único, mas que na correria ficara esquecida em baixo do banco do carro.

– “Sente-se aí meu jovem, assim ficaremos vis-à-vis.” – disse com ar de enfado já esperando que ele não tivesse ideia do que se tratava tal expressão francófila. Somente em raros momentos, na fase de vida em que se encontrava, é que conseguia exercitar o ar blasé que sempre lhe acompanhara pelos palcos do mundo.

– “Desculpe ter batido palmas, mas não encontrei a campainha. Insisti nas palmas, pois como ninguém aparecia, imaginei que a senhora não tivesse ouvido…”

– “Mas eu ouvi desde o primeiro momento. Uma prima dona não esquece jamais o som dos aplausos. Somente não atendi logo de pronto, pois queria usufruir um pouco mais deste som que há tempos não são para mim”.

Nazir Bittar

É Doutor em música pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Mestre em Musicologia Etnológica pela Universität zu Köln - Colônia / Alemanha, e Bacharel em música também pela Unicamp. Maestro da Orquestra Sinfônica de Franca, Orquestra Jovem de Franca e do Ensemble Vocal OSF. Atua como diretor cênico e artístico de óperas e musicais.

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