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‘Um broto legal’ honra o legado de Celly Campello

Por Jota Silvestre

Cinebiografia da Namoradinha do Brasil chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 16

Para as gerações mais novas, falar em Celly Campello e Estúpido Cupido é conversa datada. Não deixa de ser verdade, mas esses jovens provavelmente desconhecem que o rock’n roll nacional que eles ouvem hoje nas plataformas de streaming devem muito a esta jovem artista que popularizou o estilo no Brasil no final dos anos 1950 com apenas 16 anos.

Uma oportunidade para conhecer a trajetória meteórica de Celly Campello é assistir ao filme Um Broto Legal, do diretor Luiz Alberto Pereira (Hans Staden, Jânio a 24 Quadros), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (16) com distribuição da Pandora Filmes. A cinebiografia apresenta os esforços do irmão de Celly (interpretada por Marianna Alexandre), Tony Campello (Murilo Armacollo) e da gravadora Odeon para vencer a resistência do público e emplacar o rock’n roll no Brasil, então dominado pelo bolero e as “rainhas do rádio”.

Ao se mudar da cidade natal da família, Taubaté, para a capital paulista, Tony tem sua primeira oportunidade como músico profissional ao travar contato com o músico e produtor vivido pelo ator Petrônio Gontijo (irreconhecível sob a maquiagem). Às apresentações em casas noturnas seguiu-se o convite para gravar um compacto, e Tony batalhou para incluir Celly, que já apresentava um programa numa rádio local, num dos lados do disco.

Assim, o calipso Handsome Boy, cantado em inglês, entrou para a história como o primeiro registro fonográfico da futura Namoradinha do Brasil. A canção, no entanto, não ranqueou tão bem nas rádios quanto o lado A do mesmo compacto, a balada Forgive Me, cantada por Tony. Com a iminência de não ter o contrato de Celly renovado pela Odeon, Tony jogou sua última cartada, encomendou a versão em português da música Stupid Cupid (de Neil Sedaka e Howard Greenfield) para o produtor Fred Jorge e convenceu os executivos da gravadora a deixar Celly gravar a canção. O compacto com Estúpido Cupido saiu em 1959, e o resto é história…

Celly (Marianna Alexandre) e Tony Campello (Murilo Armacollo) revolucionaram o cenário musical brasileiro no final dos anos 1950

O diretor Luiz Alberto Pereira tem uma ligação pessoal com a trajetória de Celly. Morador de Taubaté quando criança, não chegou a encontrá-la pessoalmente, mas assistiu de perto à agitação em torno da revolução que ela estava promovendo no cenário musical brasileiro. O filme faz um trabalho competente de reconstituição de época em termos de figurinos, locações e objetos, muitos deles emprestados por Tony Campello, hoje com 85 anos. O irmão de Celly participou ativamente da produção ao compartilhar lembranças que enriqueceram a pesquisa de Pereira.

O maior achado de Um Broto Legal é estreante, e também musicista, Marianna Alexandre, que esbanja simpatia e afinação e se mostra bastante à vontade no papel principal. Murilo Armacollo não deixa por menos e traduz de forma bastante convincente a empolgação da juventude daquela época por um novo ritmo que a representasse.

Luiz Alberto Pereira fez a opção artística de concentrar Um Broto Legal nos esforços iniciais que fizeram a carreira de Celly decolar. O terceiro ato ganha um ritmo acelerado, emulando a velocidade dos acontecimentos em torno da jovem cantora na vida real. Sucessos seguintes a Estúpido CupidoBanho de Lua, Túnel do Amor, Broto Legal – ganham vida em sequências musicais gravadas sob medida para ativar os gatilhos emocionais da geração que viveu aquela revolução musical e de costumes.

Para surpresa – e desapontamento – de milhões de fãs, aos 20 anos e no auge da carreira, em 1962 Celly anunciou que estava deixando a música para se casar com o namorado de adolescência, Eduardo (interpretado por Danillo Franccesco). O que veio a partir daí – o convite (recusado) para comandar o programa Jovem Guarda ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, as apresentações e discos que se seguiram ao revival dos anos 60 provocado pela novela Estúpido Cupido (1976) da Rede Globo e sua morte precoce em 2002 – relatado num lettering antes de subirem os créditos finais.

Para as gerações veteranas, Celly Campello deixou de herança músicas e momentos inesquecíveis; para as mais jovens, inspiração para quebrar barreiras e mudar comportamentos – ainda que elas não saibam disso. Com uma produção caprichada, Um Broto Legal honra a ambos legados e merece ser assistido. Infelizmente, até o dia da estreia a exibição em Franca e Ribeirão Preto não estava confirmada nem há previsão para o filme entrar no catálogo das plataformas de streaming.

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